Costuramos seis meses para noventa segundos de avenida
Dentro do barracão onde uma escola troca o silêncio de novembro pela explosão fluorescente que atravessa o Sambódromo em uma única noite de fevereiro.
Passei duas semanas de janeiro no fundo do barracão, entre cinco mil plumas de avestruz tingidas de verde-limão e um chão coberto de strass que grudava na sola do tênis. Ninguém ali fala em "fantasia" — fala em peso, em equilíbrio, em quantos quilos de pena uma destaque consegue carregar por setecentos metros sem perder o sorriso.
O preto que faz a cor gritar
A arquibancada some quando as luzes baixam, e é esse vazio escuro que transforma a fúcsia em arma. Costureiras que aprenderam o ofício nos anos oitenta dizem a mesma coisa: a pena só existe quando o refletor a encontra contra o nada. O resto do ano elas guardam segredo sobre as misturas de cola e verniz que deixam o dourado vivo sob a chuva.