Cheguei a Juazeiro do Norte numa tarde de setembro, quando o calor do Cariri fazia o asfalto ondular como pano de venda. Na oficina de Seu Expedito Silva, na Rua São Pedro, o cheiro de tinta tipográfica e madeira recém-cortada me fez lembrar as tardes da infância em Crato, quando minha avó comprava folhetos de cordel na feira de quinta-feira.
O Ofício que Sobreviveu ao Tempo
A xilogravura nordestina nasceu da necessidade, não do luxo. Os primeiros cordelistas do século XIX precisavam de ilustrações baratas para seus folhetos, e a madeira de jenipapeiro oferecia uma superfície resistente para centenas de impressões. Cada matriz era entalhada com formões e goivas, ferramentas que não mudaram em duzentos anos de ofício no sertão.
“A madeira tem memória. Cada corte conta uma história que a tinta sozinha não consegue narrar. Quando eu entalho um cangaceiro, eu vejo meu avô fazendo o mesmo desenho, com as mesmas mãos.”
Hoje, oficinas como a de Seu Expedito são raras no Nordeste. Dos quarenta mestres xiloggravadores ativos na década de 1980, restam menos de dez em todo o Ceará. Mas um movimento silencioso de jovens artistas, de Fortaleza a Campina Grande, está resgatando a técnica com uma urgência que beira a devoção.
Seu Expedito me mostra a última matriz que terminou: um cangaceiro de chapéu largo, rifle apoiado no ombro, montado sobre um jumento que atravessa o rio. “Esse é Lampião voltando para casa,” ele diz, com um sorriso que revela orgulho e saudade ao mesmo tempo. “Todo mundo aqui conhece essa história.”